terça-feira, janeiro 27, 2004
Estorias
Moçambique é, claramente, um país muito particular. Sempre foi e sempre será. Senão, reparemos nas duas estórias que seguem...
GIRAFAS
Por volta de 1972/73, o Parque Nacional da Gorongosa (situado na antiga província da Beira, actual província de Sofala, no centro de Moçambique), a braços com a necessidade de aumentar o número de girafas, decidiu encomendar alguns desses animais à antiga Rodésia do Sul (actual Zimbabwe).
Sallisbury (agora, Harare), capital da Rodésia, dista da Beira cerca de 500 quilómetros, passando por cidades como Manica e Vila Pery (actual Chimoio).
Ao encarregado do transporte das girafas foi-lhe facultado um camião de caixa aberta. O sujeito (um moçambicano típico), colocou os animais na parte de trás do camião, sendo que os ditos ultrapassavam claramente a altura da cabine do condutor. Posto isto, iniciou o seu trajecto de regresso. Acontece que, já em território Moçambicano, sensivelmente a meio caminho entre Manica e Vila Pery, existe uma pequena ponte de cimento. Enfim, a ponte ainda existe e não tem qualquer efeito prático. Na realidade, não serve para que os carros ou transeuntes passem no seu cimo. O seu objectivo precípuo é apenas o de publicitar a província e um ou outro produto provincial.
O moçambicano, de pé a fundo, avançava temerário pela savana Africana, até que, ouviu e sentiu um barulho bastante intenso, que, inclusivé, lhe descontrolou o camião. Após o pequeno incidente, o restante caminho decorreu consideravelmente bem, sem sobressaltos de maior.
Chegado à Beira, qual não é a surpresa dos administradores da Gorongosa, ao constatarem que todas as girafas, de língua de fora, tinham o pescoço partido! Acto contínuo, as atenções voltaram-se para o transportador, que, no entanto, não conseguiu explicar o sucedido.
Efectivamente, como é bom de ver, o sujeito não pensou sequer que as girafas pudessem ultrapassar a altura da ponte e, mesmo de pois de ter sentido um forte embate, não se apercebeu do que havia acontecido, pelo que ainda percorreu cerca de 250 quilómetros com 4 girafas mortas na caixa do seu camião...
CONVITE PARA JANTAR
Não é há muitos anos que vivo em África, mas são já os suficientes para saber que os Moçambicanos herdaram algumas das características dos Portugueses e aprimoraram-nas, para o bem e para o mal...
Há alguns meses atrás, surgiu um diferendo entre guardas fronteiriços de Moçambique com um país vizinho. Não se sabe muito bem como começou, apenas se sabe que cada um dos guardas em causa (de um lado e do outro), adoptou como sua a causa que os opunha aos estrangeiros. A refrega recrudesceu, chegando a haver uma acesa troca de tiros, felizmente, sem vítimas mortais (fazemos aqui uma pequena inflexão, para referir que, não obstante serem funcionários estatais, o desentendimento em causa era puramente pessoal, nunca tendo estado em causa as relações diplomáticas das nações envolvidas, que, até há bem pouco tempo, desconheciam as confrontações).
Foi então que, numa altura em que o conflito já alastrava às próprias cidades fronteiriças, a facção Moçambicana decidiu convidar o lado vizinho para um jantar de apaziguamento. Assim foi. Os estrangeiros aceitaram e, no dia aprazado, dirigiram-se para a cidade Moçambicana. Ao que consta, o jantar correu maravilhosamente, sendo que, aparentemente, o convívio decorreu verdadeiramente pacificador.
Após o jantar, estando os estrangeiros a saborear um digestivo e a fumar o cigarrito da ordem, foi-lhes amavelmente perguntado se possuíam visto de entrada em Moçambique. Obviamente, os visados apressaram-se a esclarecer que não o tinham, porquanto haviam sido convidados pelos guardas Moçambicanos e, no seu entender, não se justificava tal prática, pois que a autorização estava subentendida. De nada lhes valeu. Todos os guardas fronteiriços estrangeiros foram colocados na cadeia...
Primeiro, veio o convite; depois, o faustoso jantar; por fim, a cadeia. Àparte o atropelo às mais básicas regras de urbanismo e lisura de comportamentos, digam-me: não haverá em tudo isto uma certa irónica malícia, tão típica dos Portugueses?
GIRAFAS
Por volta de 1972/73, o Parque Nacional da Gorongosa (situado na antiga província da Beira, actual província de Sofala, no centro de Moçambique), a braços com a necessidade de aumentar o número de girafas, decidiu encomendar alguns desses animais à antiga Rodésia do Sul (actual Zimbabwe).
Sallisbury (agora, Harare), capital da Rodésia, dista da Beira cerca de 500 quilómetros, passando por cidades como Manica e Vila Pery (actual Chimoio).
Ao encarregado do transporte das girafas foi-lhe facultado um camião de caixa aberta. O sujeito (um moçambicano típico), colocou os animais na parte de trás do camião, sendo que os ditos ultrapassavam claramente a altura da cabine do condutor. Posto isto, iniciou o seu trajecto de regresso. Acontece que, já em território Moçambicano, sensivelmente a meio caminho entre Manica e Vila Pery, existe uma pequena ponte de cimento. Enfim, a ponte ainda existe e não tem qualquer efeito prático. Na realidade, não serve para que os carros ou transeuntes passem no seu cimo. O seu objectivo precípuo é apenas o de publicitar a província e um ou outro produto provincial.
O moçambicano, de pé a fundo, avançava temerário pela savana Africana, até que, ouviu e sentiu um barulho bastante intenso, que, inclusivé, lhe descontrolou o camião. Após o pequeno incidente, o restante caminho decorreu consideravelmente bem, sem sobressaltos de maior.
Chegado à Beira, qual não é a surpresa dos administradores da Gorongosa, ao constatarem que todas as girafas, de língua de fora, tinham o pescoço partido! Acto contínuo, as atenções voltaram-se para o transportador, que, no entanto, não conseguiu explicar o sucedido.
Efectivamente, como é bom de ver, o sujeito não pensou sequer que as girafas pudessem ultrapassar a altura da ponte e, mesmo de pois de ter sentido um forte embate, não se apercebeu do que havia acontecido, pelo que ainda percorreu cerca de 250 quilómetros com 4 girafas mortas na caixa do seu camião...
CONVITE PARA JANTAR
Não é há muitos anos que vivo em África, mas são já os suficientes para saber que os Moçambicanos herdaram algumas das características dos Portugueses e aprimoraram-nas, para o bem e para o mal...
Há alguns meses atrás, surgiu um diferendo entre guardas fronteiriços de Moçambique com um país vizinho. Não se sabe muito bem como começou, apenas se sabe que cada um dos guardas em causa (de um lado e do outro), adoptou como sua a causa que os opunha aos estrangeiros. A refrega recrudesceu, chegando a haver uma acesa troca de tiros, felizmente, sem vítimas mortais (fazemos aqui uma pequena inflexão, para referir que, não obstante serem funcionários estatais, o desentendimento em causa era puramente pessoal, nunca tendo estado em causa as relações diplomáticas das nações envolvidas, que, até há bem pouco tempo, desconheciam as confrontações).
Foi então que, numa altura em que o conflito já alastrava às próprias cidades fronteiriças, a facção Moçambicana decidiu convidar o lado vizinho para um jantar de apaziguamento. Assim foi. Os estrangeiros aceitaram e, no dia aprazado, dirigiram-se para a cidade Moçambicana. Ao que consta, o jantar correu maravilhosamente, sendo que, aparentemente, o convívio decorreu verdadeiramente pacificador.
Após o jantar, estando os estrangeiros a saborear um digestivo e a fumar o cigarrito da ordem, foi-lhes amavelmente perguntado se possuíam visto de entrada em Moçambique. Obviamente, os visados apressaram-se a esclarecer que não o tinham, porquanto haviam sido convidados pelos guardas Moçambicanos e, no seu entender, não se justificava tal prática, pois que a autorização estava subentendida. De nada lhes valeu. Todos os guardas fronteiriços estrangeiros foram colocados na cadeia...
Primeiro, veio o convite; depois, o faustoso jantar; por fim, a cadeia. Àparte o atropelo às mais básicas regras de urbanismo e lisura de comportamentos, digam-me: não haverá em tudo isto uma certa irónica malícia, tão típica dos Portugueses?
quinta-feira, janeiro 15, 2004
Até já.
Perdoem-me pelo tom mais sentimental, mas não imagino outro que se possa adequar às alturas de mudança, principalmente, quando deixamos (ainda que temporariamente) uma terra apaixonante, regada por tantos e tão bons amigos. Perdoem-me, por isso, este momento de saudável loucura... É ao som de Carla Bruni e na companhia de bons amigos que venho por este meio dizer um "até já". O Vondo cresce e vamos ter enviados especiais no Zimbabwe... Chegou a altura de agradecer a todos quantos nos têm acompanhado: poucos mas bons! O nosso blogue nasceu em Moçambique. Nada mudará! Tentaremos continuar a falar de Portugal e de Moçambique, acrescente-se, a partir de segunda-feira, notícias de Harare...
Só espero que o Mugabe não me limpe o sebo...
Já agora, perdoem-me, novamente, a pieguice, mas aqui vai um brilhante poema de alguém que sabe, como ninguém, retratar a nossa mundana e apaixonante vida...
Este é para vós, oh dilectos amigos do Vondo!
Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Fernado Pessoa.
Só espero que o Mugabe não me limpe o sebo...
Já agora, perdoem-me, novamente, a pieguice, mas aqui vai um brilhante poema de alguém que sabe, como ninguém, retratar a nossa mundana e apaixonante vida...
Este é para vós, oh dilectos amigos do Vondo!
Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Fernado Pessoa.
quinta-feira, janeiro 08, 2004
Não há nada como prestar atenção no que dizem os entendidos...
Este foi o comentário deixado por Graça Machel, viúva de Samora
Machel, e actualmente casada com Nelson Mandela, no casamento da
filha de Eduardo dos Santos, em Luanda:
"E ainda há quem diga que África é só desgraças, deslocados de
guerra, esfomeados, afectados e crianças mal-nutridas. Não vi nada
disso durante o casamento da Tchizé, nem no Futungo de Belas nem na
Cidade Alta. Há muita inveja entre certas camadas das sociedades
ocidentais, especialmentes da parte dos saudosistas que perderam
privilégios quando o povo passou a estar no poder." - Graça Machel
Sim, é verdade que a Tchizé não passou fome...
Já agora, quem são os saudosistas que refere a personagem? Partindo do pressuposto que se refere aos Portugueses, penso que não faz qualquer sentido, pois que, actualmente, pouco se fala de África em Portugal. Melhor: Portugal não fala mais de África do que qualquer outro país Europeu. E mais: se o faz, é porque tem consciência das necessidades do continente Africano (mas, claro, no casamento da Tchizé tudo foi do melhor...). No entanto, se o que diz é verdade (e deve ser, já que vive precisamente em África; bom, nem sempre aí vive! Não perde uma oportunidade de vir à Europa pavonear a riqueza alcançada à custa do sofrimento desse povo que tão bem conhece...), o Vondo tem a solução: Povos Ocidentais, paremos de enviar fundos estruturais, conjunturais ou o raio que os parta! Se, como refere a dama, África se revê no casamento da Tchizé, então é porque são organizados, sérios e responsáveis... Aliás, como ela própria...
P.S.: só para avivar a memória: muitos dos actuais críticos das políticas e corrupção Africana (e não quero com isto dizer que seriam mais sérios que os sucessores...), foram homens que se bateram ideológica e politicamente ao lado do seu falecido marido e, hoje, criticam abertamente aqueles que mais beneficiaram com a morte de Samora (enfim e sem tibiezas, os homens do poder económico e político em Moçambique!). Mas, claro, isso já lá vai e a memória é curta...
Machel, e actualmente casada com Nelson Mandela, no casamento da
filha de Eduardo dos Santos, em Luanda:
"E ainda há quem diga que África é só desgraças, deslocados de
guerra, esfomeados, afectados e crianças mal-nutridas. Não vi nada
disso durante o casamento da Tchizé, nem no Futungo de Belas nem na
Cidade Alta. Há muita inveja entre certas camadas das sociedades
ocidentais, especialmentes da parte dos saudosistas que perderam
privilégios quando o povo passou a estar no poder." - Graça Machel
Sim, é verdade que a Tchizé não passou fome...
Já agora, quem são os saudosistas que refere a personagem? Partindo do pressuposto que se refere aos Portugueses, penso que não faz qualquer sentido, pois que, actualmente, pouco se fala de África em Portugal. Melhor: Portugal não fala mais de África do que qualquer outro país Europeu. E mais: se o faz, é porque tem consciência das necessidades do continente Africano (mas, claro, no casamento da Tchizé tudo foi do melhor...). No entanto, se o que diz é verdade (e deve ser, já que vive precisamente em África; bom, nem sempre aí vive! Não perde uma oportunidade de vir à Europa pavonear a riqueza alcançada à custa do sofrimento desse povo que tão bem conhece...), o Vondo tem a solução: Povos Ocidentais, paremos de enviar fundos estruturais, conjunturais ou o raio que os parta! Se, como refere a dama, África se revê no casamento da Tchizé, então é porque são organizados, sérios e responsáveis... Aliás, como ela própria...
P.S.: só para avivar a memória: muitos dos actuais críticos das políticas e corrupção Africana (e não quero com isto dizer que seriam mais sérios que os sucessores...), foram homens que se bateram ideológica e politicamente ao lado do seu falecido marido e, hoje, criticam abertamente aqueles que mais beneficiaram com a morte de Samora (enfim e sem tibiezas, os homens do poder económico e político em Moçambique!). Mas, claro, isso já lá vai e a memória é curta...